Escolhendo o tom da campanha

A linguagem e a escolha de palavras são imensamente reveladoras em uma campanha eleitoral. É extremamente rico analisar os discursos dos candidatos.
Apesar de ainda serem considerados apenas pré-candidatos à presidência, na prática, José Serra e Dilma Roussef comandam uma campanha eleitoral intensa, com discursos, visitas de articulações a aliados e presença constante em eventos de todo o país. Nesses primeiros movimentos, José Serra tem se aproveitado de sua maior experiência em campanhas e parece ter um discurso mais preparado do que o de Dilma.
Em evento realizado no Recife, em treze de maio, José Serra afirmou julgar Lula “acima do bem e do mal”, argumentando que o petista merece sua altíssima popularidade devido ao seu bom governo. A estratégia do PSDB, à primeira vista estranha, é colocar o atual presidente como uma “entidade” e, dessa forma, não fazer comparações com Lula, mas sim com Dilma.
“A consequência de Lula ser uma entidade é que, dessa forma, fica claro que Dilma não é Lula”, afirmou seu coordenador de campanha, o senador Cláudio Guerra em entrevista à Folha de S. Paulo. O índice de aprovação do governo atual beira os 90%, por isso o staff de Serra julga que não seria sábio promover um embate direto com Lula.
Em uma escolha precisa de palavras, Serra tem se colocado não como “anti-Lula”, mas sim como “pós-Lula”. E no cenário “pós-Lula, o que existe de concreto é o confronto entre Dilma e Serra. Cláudio Guerra diz que “há uma imensa diferença entre Lula e Dilma. Lula não vai se repetir nem hoje, nem amanhã, nem nunca: é um episódio da história do Brasil”.
Essas escolhas fizeram com que Serra recuperasse um pouco do terreno perdido nas primeiras pesquisas de intenção de voto, que chegaram a apontar quase um empate técnico entre ele e Dilma, mas que agora mostram o candidato do PSDB com 10% de vantagem (38% contra 28%).
Se a popularidade de Lula é justamente aquilo que Serra procura evitar, Dilma tem tentado aproveitar-se dela ao máximo. Na propaganda eleitoral partidária do PT, exibida no mesmo dia treze de maio, o texto procurava promover uma comparação entre os governos Lula e FHC, colocando Dilma como articuladora do primeiro e Serra do segundo. Durante os dez minutos do vídeo, Lula contou um pouco da história política de Dilma, suas lutas durante a ditadura e seu papel fundamental durante seu governo.
Dilma tenta se associar ao máximo à Lula e pegar carona na sua enorme popularidade e aprovação popular. Lula tem trabalhado intensamente na campanha eleitoral. Carismático, o presidente tem, inclusive, tentado ajudar Dilma em seu discurso. No dia 26 de abril, ambos se reuniram em Brasília após a aparição da candidata em um programa de TV.
Lula queria ajudá-la a se sair melhor nessas situações. Segundo ele, Dilma ainda é muito “técnica” e precisa ser mais “direta e simples” nas entrevistas para a TV e falar frases mais sintéticas, evitando deixar raciocínios sem conclusão. Para a coordenação da campanha petista, nesse momento essas falhas ainda não são tão graves, mas poderão fazer a diferença em um momento mais agudo da campanha.
Conhecido por sua irreverência e pelo uso de metáforas exageradas, não se pode negar que Lula consegue em suas falas comunicar-se com a massa da população brasileira. No entanto, ele próprio precisou de três campanhas para conseguir acertar o tom ideal para ser eleito.
A linguagem e a escolha de palavras são imensamente reveladoras em uma campanha eleitoral. É extremamente rico analisar os discursos dos candidatos. Por isso, com este texto, a Scritta inaugura uma série de artigos sobre os presidenciáveis e suas palavras.



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