Especial José Saramago

“Um grande amigo, um ser humano admirável, um escritor imenso, um zelador apaixonado da língua portuguesa”. Assim Chico Buarque definiu o escritor português José Saramago, que faleceu na última sexta-feira. Único vencedor do Prêmio Nobel de Literatura com obras publicadas em português, o polêmico Saramago conquistou popularidade mundial e, em especial, no Brasil, onde vendeu mais de 1,5 milhões de livros.
“Um grande amigo, um ser humano admirável, um escritor imenso, um zelador apaixonado da língua portuguesa”. Assim Chico Buarque definiu o escritor português José Saramago, que faleceu na última sexta-feira. Único vencedor do Prêmio Nobel de Literatura com obras publicadas em português, o polêmico Saramago conquistou popularidade mundial e, em especial, no Brasil, onde vendeu mais de 1,5 milhões de livros.
Nascido na pequena aldeia de Azinhaga em 1922, Saramago cresceu numa família pobre e sua primeira profissão foi a de serralheiro mecânico. Apesar de ter publicado um livro aos 22 anos, sua carreira literária começou efetivamente bem mais tarde, na década de 1970, após ter trabalhado como jornalista e editor de cultura do jornal de Lisboa.
Saramago atraiu muitos holofotes graças à polêmica que sua obra sempre causou. Ateu declarado e marxista, suas posições políticas renderam diversas controvérsias. A maior delas aconteceu em 1993, quando seu livro “O evangelho segundo Jesus Cristo”, que conta uma história humanizada da vida de Jesus, foi proibido pelo governo português de participar de um prêmio da União Europeia.
Os romances de Saramago costumam ter frases bastante poéticas. Detalhista, o escritor chegava a datilografar três vezes cada livro para entregá-lo limpo aos editores.
“Luiz, essa gente quer me matar de amor.”
Essa foi a frase dita por Saramago ao seu editor brasileiro e amigo íntimo Luiz Schwarcz, quando esteve no Brasil em 1988 para lançar o livro “Jangada de pedra”. O autor esteve no país diversas vezes, onde fez o lançamento mundial de seu penúltimo romance, em 2008, “A viagem do elefante”.
Nessa mesma viagem, Saramago proferiu uma palestra no Sesc Pinheiros, em que comoveu toda a plateia, falando sobre vida, morte, doença, falta de Deus e literatura. Os aplausos foram efusivos.
Da periferia ao centro
“O português era uma língua periférica, ele ajudou a vencer essa barreira.” Este foi o comentário do escritor moçambicano Mia Couto para a Folha de São Paulo, sobre a morte de José Saramago. De fato, o caminho da periferia ao centro parece ser a tona da vida do escritor. Nascido em uma pequena aldeia portuguesa, sem conseguir cursar uma faculdade e falante de uma língua periférica para a alta cultura, Saramago conseguiu ganhar um prêmio Nobel de literatura.
Principais Romances Publicados
■ Terra do pecado, 1947
■ Manual de pintura e caligrafia, 1977
■ Levantado do chão, 1980
■ Memorial do convento, 1982
■ O Ano da morte de Ricardo Reis, 1984
■ A jangada de pedra, 1986
■ História do Cerco de Lisboa, 1989
■ O Evangelho segundo Jesus Cristo, 1991
■ Ensaio sobre a cegueira, 1995
■ Todos os nomes, 1997
■ A caverna, 2000
■ O homem duplicado, 2002
■ Ensaio sobre a lucidez, 2004
■ As intermitências da morte, 2005
■ A viagem do elefante, 2008
■ Caim, 2009
- Frases - Compiladas pelo jornal O Globo:
"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever", disse ao receber o Prêmio Nobel, em 1998, citando o avô analfabeto.
- Em entrevista ao jornal O Globo, em 2009, na época do lançamento de seu último livro, "Caim":
"No fundo, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à humanidade. São palavras duras, mas há que dizê-las."
"Para mim, a Bíblia é um livro. Importante, sem dúvida, mas um livro."
"Penso que não merecemos a vida, penso que as religiões foram e continuam a ser instrumentos de domínio e morte."
- Em entrevista ao O Globo, em julho de 2009:
"Nada há que seja verdadeiramente livre nem suficientemente democrático. Não tenhamos ilusões, a internet não veio para salvar o mundo."
“Creio que me fizeram todas as perguntas possíveis. Eu próprio, se fosse jornalista, não saberia o que me perguntar."
- Em entrevista ao El País, no ano passado:
"A morte é a inventora de Deus."
"Deus, o diabo, o bom, o ruim, tudo está na nossa cabeça, não no céu ou no inferno, que também inventamos. Não percebemos que, tendo inventado Deus, imediatamente nos escravizamos a ele."
"Há quem me nega o direito de falar de Deus, porque não creio. E eu digo que tenho todo o direito do mundo. Quero falar de Deus porque é um problema que afeta toda a humanidade."
- Em entrevista à BBC, em junho de 2009:
"Eu sou um comunista hormonal, meu corpo contém hormônios que fazem crescer minha barba e outros que me tornam um comunista. Mudar, para quê? Eu ficaria envergonhado, eu não quero me tornar outra pessoa."
- Em entrevista a Edney Silvestre, em 2007:
"Se eu pudesse repetir minha infância, a repetiria exatamente como foi, com a pobreza, com o frio, com pouca comida, com as moscas e os porcos, tudo aquilo."
"A globalização é um totalitarismo. Totalitarismo que não precisa nem de camisas verdes, nem castanhas, nem suásticas. São os ricos que governam, e os pobres vivem como podem."
"Sim, tenho o Prêmio Nobel. E quê? Não que eu achava pouco ter o Prêmio Nobel, não, não. É que no fundo, no fundo, tudo é pouco, tudo é insignificante."
"As pessoas transformam-se em máquinas de ganhar dinheiro. Ou de tentar ganhar dinheiro."
"Mas então ninguém percebe que matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino?"
"Duvido que nos tempos mais próximos as ideias socialistas tenham qualquer oportunidade."
- Entrevista à revista Época, em 2005:
"Não consigo temer a morte".
"Depois de tantas esperanças, não imaginávamos que escândalos de corrupção tomassem o governo Lula, que representava uma luz nova para um mundo cada vez mais mergulhado em interesses mesquinhos. Ele não poderia ter admitido a corrupção, e não consegue mais combatê-la."
"Lula está de pés e mãos atados e parece que não vai mais conseguir fazer as grandes medidas que prometeu no plano social. Foi uma decepção para o mundo."
"Agora vivemos o império do petróleo e do dinheiro − o resto é disfarce."
"Não sou pessimista. O mundo é que é péssimo."
- Entrevista ao O Globo, em 2003, falando sobre o Holocausto:
"Vivendo sob as trevas do Holocausto e esperando ser perdoados por tudo o que fazem em nome do que eles sofreram parece-me ser abusivo. Eles não aprenderam nada com o sofrimento dos seus pais e avós."
- Em 2002, quando comparou a situação nos territórios palestinos com o campo de concentração nazista de Auschwitz:
"Nós podemos comparar (a situação palestina) com o que aconteceu em Auschwitz."



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