Possíveis origens do gerundismo

Ninguém sabe ao certo como esse vício linguístico começou. Sabe-se, sim, que o grupo que mais o utiliza é o de atendentes de telemarketing ou de call centers.
“Nossa atendente vai estar confirmando alguns dados com o senhor agora”. Ouvi essa frase ontem, após aceitar um novo serviço de minha operadora telefônica. Esse gerundismo não vai acabar nunca, pensei. Já faz mais de 10 anos que esse assunto veio à tona. Frases como “Vou estar providenciando”, “Vou estar enviando”, entre outras, provocaram (e provocam) dores nos ouvidos de muitos brasileiros. Muito já se escreveu criticando esse uso equivocado do gerúndio. No entanto, ele ainda sobrevive.
Ninguém sabe ao certo como esse vício linguístico começou. Sabe-se, sim, que o grupo que mais o utiliza é o de atendentes de telemarketing ou de call centers. Por isso, a hipótese mais aceita sobre sua origem é a da tradução direta do emprego do tempo verbal “futuro contínuo” do inglês. Pena que o que funciona corretamente em uma língua pode ser um erro em outra.
O future continuous do inglês é usado para descrever uma ação que estará completa em um determinado momento do futuro. Por exemplo, é possível dizer “My friends will be arriving at 10 pm tomorrow” (“Meus amigos chegarão amanhã às 10h”, e não “Meus amigos estarão chegando amanhã às 10h”, como muitos costumam traduzir). Ou seja, até as 10 da noite, isso já terá ocorrido.
Entretanto, esse tempo verbal não existe em português. Na nossa língua, para tal ação se usa o futuro simples (“Meus amigos chegarão amanhã às 10h”). Eles não estarão chegando em hipótese alguma. Os tempos verbais das diferentes línguas revelam como cada idioma classifica as ações em relação ao tempo. Entre o inglês e o português, por exemplo, diversos tempos verbais não têm equivalência direta, como o “presente perfeito” da primeira língua ou o “pretérito imperfeito” da segunda.
Além dessa evidência da tradução direta desse tempo verbal do inglês, outro indicativo de que sua origem está ali é o fato de que muitos desses call centers são de empresas multinacionais com matrizes nos EUA. É muito possível que os materiais de treinamento tenham sido traduzidos equivocadamente e que os atendentes tenham aprendido que o “vou estar enviando seus produtos até o fim da semana” é a maneira mais educada de atender o cliente.
Felizmente, nos últimos anos, o gerundismo vem sendo menos empregado. Afinal, as empresas vêm reinvestindo no treinamento de seus atendentes, para não terem sua imagem ligada a erros de português. Por outro lado, e infelizemnte, muitas pessoas acabaram por eliminar de vez o gerúndio de seu vocabulário, com medo de cometerem algum tipo de erro. Desnecessário, eu diria.
Observe a sentença: “Mesmo que já tenha sido proibido, alguns colaboradores podem estar acessando alguns sites de conteúdo inapropriado”. Se, em vez de utilizar o gerúndio, optasse por usar a forma mais simples, o sentido seria outro: “Mesmo que já tenha sido proibido, alguns colaboradores podem acessar alguns sites de conteúdo inapropriado”. No primeiro caso, há a possibilidade de os colaboradores ainda acessarem os sites proibidos; no segundo, há uma permissão, uma liberação do acesso. Portanto, nem sempre o uso do gerúndio é equivocado.
O correto uso do gerúndio
Criticar o gerundismo não significa pregar a abolição do gerúndio em português. Pelo contrário, em muitas situações, ele é necessário e seu uso pode revelar estilo e elegância linguística.
Até mesmo a locução “vou estar + gerúndio” é legítima quando comunica a ideia de um futuro em relação a outro futuro. Veja: “Amanhã não poderei viajar pois vou estar analisando os relatórios”, ou seja, passarei o dia inteiro a analisar os relatórios. Ou então: “Quando você chegar, eu vou estar dormindo”― “dormir” é uma ação contínua e simultânea.
E este não é o único emprego do gerúndio. Sem recorrer aos nomes excessivamente técnicos, abaixo estão apresentadas algumas situações em que o gerúndio é bem empregado, mesmo estando na sua forma simples.
Para expressar:
- Causa – “Estando sem saída, o padre confessou seus pecados”.
- Modo – “Sorrindo, eu pretendo levar a vida” (Cartola, compositor brasileiro, preferiu escrever “A sorrir, eu pretendo levar a vida…”).
- Condição – “Havendo quem compre droga, haverá oferta”.
- Concessão – “Sendo corintiano, mentiu que era palmeirense”.



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