Palavras feias: sobre o apego à língua e as maneiras de encarar a Reforma Ortográfica
"No Brasil, escreve-se português com açúcar." (Eça de Queiroz)
Certo dia, estava eu saboreando um cafezinho depois do almoço com um grupo de amigos e acabamos discutindo questões da Reforma Ortográfica. Esse assunto frequentemente tem aparecido como consequência dos nossos encontros, e estou certa de que não é só conosco que isso acontece. Muitos grupos de amigos por todo o Brasil devem estar circundando as mesas de bar com suas questões e razões, suas certezas e verdades acerca dessa matéria tão polêmica.
Não é à toa que isso acontece. Trace um histórico de sua vida e identifique os pontos em que se destaca o assunto “língua portuguesa”: desde o berço até os primeiros balbucios, a mãe parabenizando e gratificando cada acerto. Depois o colégio, o desenho das primeiras letras, a valiosa redação do vestibular e a dissertação na faculdade, que deve ser certeira para comunicarmos em poucas linhas tudo o que apreendemos daquela longa teoria. Esses momentos ilustram muito bem como é constante a busca que temos que empreender para dominar nosso idioma, e como esse domínio é fundamental para alcançarmos o sucesso em nossa vida social.
E é então que, de repente, vem a Reforma Ortográfica e vupt! Lá se foi o nosso domínio. A fera — antes domesticada — nos olha novamente nos olhos com fome selvagem. “Vou te comer” — é o que me diz o hífen toda vez que olho para ele.
Mas eu falava sobre a conversa na mesa do café. Foi lá que pude ouvir a seguinte afirmação, vinda de um grande amigo, pós-graduando e tudo: “Eu só gostaria de poder continuar usando a língua que me ajudou a construir minha identidade”. Dramático, eu diria.
Assim como meu amigo, muitas pessoas têm resistido às alterações propostas pela Reforma Ortográfica. Seus argumentos geralmente são um tanto quanto subjetivos: “A língua que me ajudou a construir minha identidade”; “eu gosto de ver nas palavras um traço da sua etimologia”; “essa palavra sem acento ficou muito feia” (essas também vieram do café).
Não quero entrar na discussão sobre os motivos e as consequências do acordo ortográfico. Quero sim discutir nosso comportamento frente a tudo isso que está acontecendo. Objetivamente falando, o que é uma palavra feia? O que atribui beleza à grafia de uma palavra a não ser o fato de que estamos acostumados a ela? Pensar nessas coisas certamente irá nos ajudar a refinar nosso pensamento sobre o assunto.
Mas como eu não sou santa... Que tal ficou para você mandachuva? A mim, parece-me que o cargo perdeu toda a sua força. E contrassenha? Pensando bem, o “ss” sempre me pareceu meio cafona e vem tirar todo o glamour dessa palavra, antes digna de um belo 007. Isso vale também para minissaia, que já era escrita desse jeito. Mas o pior caso, em minha opinião, é o “antionomatopeísmo” (gostou do termo que acabo de inventar?) de micro-ondas: onde é que foram parar as ondas da pronúncia?
Brincadeiras à parte, a questão é que nossa língua nos faz assim como nós a fazemos. Eu, a língua, o mundo: tudo está junto nesse movimento, nas mudanças, nas evoluções e nas revoluções. A única certeza que temos é que domar esse idioma refeito é imprescindível. Não perca mais tempo: pegue já seu chicotinho e seu novo dicionário. Desapegue-se do que fica para trás, abra-se para as novas possibilidades de um português renovado. Eu asseguro-lhe que é a melhor maneira de sair na frente.
E por falar em dominar para vencer, acabo de lembrar-me de uma boa história: eu estava no pré-primário, e minha mãe ensinou-me que se eu tinha os discos da Xuxa número um, dois, três e quatro, então eu tinha do um ao quatro. Muito feliz por aprender mais um truque para me comunicar eficazmente, fui mostrar o meu novo conhecimento para a garotada. Tudo que eu me lembro é da grande humilhação que sofri. Era impossível para os meus amigos entenderem que não, eu não tinha só dois discos da Xuxa, eu não tinha só o um e o quatro! Eu tinha todos!
Eu não precisava dessa nova estratégia para as conversas com meus amigos. A fim de mostrar a minha superioridade linguística, acabei não me comunicando. Cada comunidade tem seu registro linguístico correspondente, e essa também é uma aprendizagem fundamental. Mas isso é assunto para uma outra mesa de bar...



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