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Pequenas ações evitam gafes na hora de enviar e-mail

Você já enviou um e-mail para alguém que não devia? Já errou o nome do seu destinatário? Enviou uma mensagem inteligível? Aprenda como pequenas ações podem evitar grandes gafes

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2º lugar - Concurso Dia do Escritor 2009: "O Ilhado", de Maycon Cypriano Batestin

Autor: Maycon Cypriano Batestin

O Ilhado

Ilhado em uma desabitada ilha de algum arquipélago do Chile (onde nem o mais avançado sistema de localização via satélite consegue localizar), Charles Cardoso, ex-vendedor de mini-bugue, começa a questionar por que o coco, que acabará de encontrar, não abre com a mesma facilidade que viu certa vez no filme “O Náufrago”, com Tom Hanks.

Muitas pessoas que se encontram nessa situação refletem profundamente sobre os males de suas vidas e as ações que determinaram o rumo a que chegaram. Choram, gritam, desesperançam-se em busca de ajuda. Charles Cardoso, porém, pensava o quanto o filme era mentiroso. O tal coco é o fruto mais complicado de se abrir que ele havia encontrado em toda a sua vida.

Charles Cardoso é um jovem de 26 anos, dono do “Mini-bugue Ação”, uma loja especializada em aluguéis e vendas desses veículos, sediada em Marataizes, Espírito Santo, Brasil. Os motivos que levam a um jovem empresário a estar ilhado em algum arquipélago do outro lado do continente são de inúmeros fatores, mas os principais se referem a: Aline Troyano, System Card e Gustavo Costa, e a suposta promoção de “Água de Coco Chileno”.


Aline Troyano

Em 1997, Charles Cardoso conheceu a internet. Ainda que fosse discada, aquilo para ele tinha o mesmo impacto que comprar revistas pornográficas aos 12 anos de idade. Era espetacular, maravilhoso, especial, divino e todos os adjetivos equivalentes.

Com o gradual avanço da Microsoft e do sistema Windows, em 2002, Charles Cardoso conheceu o messenger (MSN), avançado sistema de comunicação a longa distância, mais eficaz que o telefone, mais viável que o correio. Esse programa foi oriundo por duas razões: 1) Você podia conversar com qualquer pessoa, em qualquer lugar; e 2) Aline Troyano.

Troyano era uma garota do Ensino Médio de uma escola pública paulista, que sonhava em ser modelo. Loira, olhos castanho-claros, provavelmente 1,65cm e incrivelmente inteligente. Cardoso a conheceu numa dessas correntes de e-mail, a qual frequentemente conhecia as pessoas e, por longos cinco anos, alimentou um relacionamento virtual.

Ter um relacionamento virtual é a mesma coisa que ter um relacionamento real, a única diferença é que, em vez de um contato físico, há apenas as insinuações artificiais, ou seja, você não beija a pessoa, apenas diz: “estou beijando você agora”, você não faz transa com a pessoa, apenas diz: “estou transando com você agora”.

Esse tipo de romance era natural para alguém como Cardoso que, ao longo da vida, não conseguiu ter um romance sério e maduro na vida real. Ao descobrir que a vida virtual evitava certos aborrecimentos da vida real, como, por exemplo, o fato de ter que ir à casa dela todo fim de semana, Cardoso, inevitavelmente, aderiu ao romance virtual como parte de uma evolução natural ao progresso da vida tranquila que tanto almejava.

Troyano, como mais tarde ele descobriria, não era uma pessoa física, como sugeria. Mas sim um ser virtual, ou um fantasma, como a Receita Federal gosta de chamar. Entretanto, ainda que não fosse real, aquilo que criaram ao longo de cinco anos de conversa se tornou, subconsciente e sentimentalmente, o mais puro e sincero romance da vida de Charles Cardoso.

Esse tipo de sentimento, que amadurece com o tempo, encontra nos vestígios da verdade a mais terrível das dores: a decepção. Quando Troyano anunciou que havia passado em um concorrido vestibular para uma universidade particular de São Paulo, pediu ao seu namorado virtual se acaso poderia contribuir para a matrícula com um determinado valor parcial. Logicamente, Cardoso contribuiu com uma quantia relativa ao pedido feito. No entanto, para realizar essa operação, ele deveria encomendar um cartão de crédito.


System Card e Gustavo Costa


O System Card foi uma sugestão de sua artificial namorada. Segundo ela, tal cartão dava um bônus de desconto e também uma boa promoção turística: a água de coco chilena. Sem questionar nada, Cardoso encomendou o cartão que, dois meses depois, chegou a sua casa.

O cartão veio com um panfleto de uma ilha chilena, esbeltamente exótica, de contornos exuberantes, que dariam inveja à ilha do filme “A Lagoa Azul”. Cardoso ficou maravilhado com aquilo e, mesmo para ele, que morava em uma praia, aquilo era mais do que o sonhado.

Curiosamente, aquela imagem o fez lembrar de uma frase dita por seu amigo, Gustavo Costa, naquela mesma manhã: “Hoje eu quero andar de mini-bugue?”. Infelizmente, isso não era uma boa notícia. Gustavo tinha a estranha mania de defecar em mini-bugues, sem uma aparente razão. Isso causava um largo estresse em Cardoso, que justifica o pensamento de uma fuga merecida para a ilustre imagem exótica do seu panfleto mentiroso.

Assim, sabendo que para ganhar a tal promoção ele deveria pagar mensalmente uma quantia absurda ao banco, durante três meses ele pagou a quantia referida, até que, no quarto mês, o golpe conclui-se.

Após ter limpado a defecção da estranha mania de seu amigo, Cardoso tomou um banho e foi assistir à televisão. Aquilo era só um passatempo, até o horário em que o amor de sua vida entrasse no programa de mensagens instantâneas.

Porém, naquela noite, o programa televisivo de jornalismo nacional mostrou a apreensão de um grupo de falsificadores e golpistas virtuais de São Paulo. O golpe, segundo a matéria, era em longo prazo e consistia em duas figuras virtuais: uma para enganar os homens, chamada de “Aline Troyano”; e outra para enganar as mulheres de chamado de “Romildo Junior”.

Além dos pseudônimos falsos, o grupo ainda tinha um sistema eletrônico de depósito, que era feito através de um cartão magnético chamado de System Card. O cartão ainda oferecia promoções de desconto e uma viagem turística para uma fictícia ilha no Chile.

Algumas pessoas sentem raiva e um ódio moral a respeito disso. Querem se vingar, tornam-se psicopatas em suas próprias mentes; outras, no entanto, sentem uma vergonha terrível e um desprezo por si mesmo. Algumas, porém, poucas na verdade, sentem a dor de uma decepção sem precedentes e de lastimável sentimento de inferioridade perante a vida. Charles Cardoso sentia tudo isso.

É inviável para esse escritor relatar o processo sentimental de Charles Cardoso diante da verdade, entretanto vale ressaltar que a combinação de inúmeros sentimentos paradoxais em seu interior determinou as escolhas posteriores que, ocasionalmente, o fariam náufrago em uma ilha desconhecida do arquipélago chileno.

As águas de coco chilena

Dois meses após o choque da verdade, Charles Cardoso decidiu que não mais limparia as merdas (literalmente) de seu amigo Gustavo Costa, e não mais cuidaria de mini-bugues. Ele iria para o Chile.

Ele sabia que a ilha da água de cocos chilena era uma mentira. Sabia que Aline Troyano era falsa e que nada do que viveu em cinco anos era real. Mas há momentos na vida de um ser humano em que o confronto com a realidade é um absurdo para a busca da felicidade. Assim, é mais viável realizar uma mentira do que aceitar a verdade.

Assim, acreditando cegamente que havia uma ilha com maravilhosos cocos chilenos e com uma exótica paisagem, Cardoso comprou uma passagem aérea de apenas ida para o famoso Chile. Ao chegar ao país estrangeiro, foi obrigado a alugar um mini-barco que o levaria até a famosa ilha do panfleto ― ainda que os empresários responsáveis pelo aluguel do barco dissessem nunca terem visto tal ilha em suas vidas.

Devido a uma casual tempestade e um despreparo para com tal, Cardoso atracou contra sua vontade, em uma ilha paradisíaca. Lá, sem qualquer sinal de civilização, e sem qualquer meio de comunicação, Cardoso começa a pensar. Seu pensamento, em vez de qualquer pânico, tem a ver, apenas, com o fato de saber como deve ser o sabor da água de coco chilena.

Assim, no mesmo ponto em que havia iniciado essa história, Cardoso se encontra. Lamentando a decepção por tudo o que acreditava em sua vida ― a foto no panfleto, a merda do emprego, a namorada, a responsabilidade, a Lagoa Azul e o Náufrago ―, Cardoso, pela primeira vez em um longo tempo, chora.

Perguntava-se “por que comigo?”, “por que assim?”, “por que nem a porra do coco abre?” e não obtinha a resposta que desejava. Sabia a resposta, mas não era essa a questão. O fato de estar ilhado correspondia ao fato de nunca ter saído de uma ilha. Seja ela artificial ou social, ele sempre esteve, e sempre estará, preso, solitário e abandonado.

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